terça-feira, 24 de maio de 2016

AMR Review lança recomendações finais pedindo por investimentos para evitar o crescimento catastrófico de casos de Tuberculose resistente e outras infecções












*Texto traduzido do Stop TB Partnership

Genebra, 19 de maio de 2016 – As recomendações finais do Review on Antimicrobial Resistance – AMR (Comitê de Resistência Microbiana), liderado por Lord Jim O’Neill e apoiado pelo primeiro-ministro britânico David Cameron, foram lançadas hoje, alertando que as infecções resistentes, como a tuberculose drogarresistente (TB-DR), matarão, a cada ano, 10 milhões de pessoas se não houver uma expansão urgente de novos recursos e fundos. O relatório oferece um plano de ação global para evitar as infecções resistentes aos medicamentos, incluindo um chamado para o estabelecimento de um Fundo Global de Inovação de US$ 2 bilhões, para pesquisas clínicas e iniciativas financeiras que desenvolvam novos testes a fim de evitar o uso desnecessário de antibióticos.

O relatório coloca a tuberculose resistente como um “pilar do desafio de controlar a resistência microbiana”, destacando que um quarto das possíveis 10 milhões de mortes por bactérias resistentes até 2050 poderiam ser causadas pela TB-DR, o que representaria uma morte por TB-DR a cada 12 segundos.

O relatório também aponta que o campo para o desenvolvimento de medicamentos para TB sofre de um prologado período de desinvestimento, deixando portfólio de produtos frágil.

“A resistência microbiana é uma das maiores ameaças à saúde desta geração. Este relatório estabelece um plano para governos, empresas farmacêuticas e políticos tomarem ações contra isso”, disse o Dr. Aaron Motsoaledi, presidente do conselho do Stop TB Partnership e Ministro da Saúde da África do Sul.

“Como outras infecções, a negligência relativa da pesquisa para novos medicamentos de TB são uma falha tanto moral quanto de mercado. Estou comprometido em avançar nas ações contra a resistência microbiana e contra a TB e espero que o G20 e outros atores tomem medidas concretas para evitar as dez milhões de mortes por ano previstas para 2050 se falharmos em nossas ações”, complementa Motsoaledi.

O relatório inclui os resultados de novas análises de intervenções de TB comissionadas pelo AMR Review, concluindo que a introdução de novos testes diagnósticos e novos regimes de tratamento poderia salvar 770.000 vidas ao longo da próxima década, destacando o impacto significativo que esses tratamentos teriam.

“A comunidade de TB parabeniza Lord Jim O’Neill e o AMR Review pelo relatório extraordinário. O trabalho do comitê vai ajudar a estimular os líderes mundiais a tratar as infecções resistentes como a TB-DR, que é única infecção de transmissão aérea entre as resistentes, com a mesma urgência e recursos com os quais vem sido tratados os surtos de Ebola e Zika Virus”, afirma a Dra Lucica Ditiu, diretora executiva do Stop TB Partnership.

“As recomendações do relatório para a TB saem na mesma ocasião em que os Estados Unidos lançam o Plano de Ação para o combate a TB-DR (dezembro de 2015), o que garante que a negligência financeira e política que vem sido praticada em relação às infecções resistentes seja indefensável. Estamos completamente comprometidos em trabalhar com os governos para levar o tema às reuniões do G20 e à Reunião de Alto Nível das Nações Unidas para Resistência Microbiana, em setembro, para garantir que as recomendações para AMR e TB-DR sejam cumpridas e que o financiamento seja adequado”, finaliza Lucica.





quinta-feira, 19 de maio de 2016

População privada de liberdade é tema de campanha sobre tuberculose


Com uma incidência de casos 28 vezes maior do que a população geral, o sistema prisional brasileiro apresenta o ambiente ideal para a disseminação da tuberculose, devido às condições de superlotação, pouca ventilação e pouca incidência de luz solar.

Além do aspecto físico, o pouco conhecimento sobre os sintomas e formas de transmissão, a falta de acesso ao diagnóstico e tratamento e o estigma e preconceito sobre a doença fazem com que o controle da tuberculose seja ainda mais difícil nesse cenário.

Considerando esses dados, foi desenvolvido no Brasil o projeto TB Reach, com foco no aumento da detecção de casos no sistema prisional. Além das atividades de rastreamento, também foi desenvolvida uma campanha educativa para os diferentes públicos da comunidade carcerária.

Campanha educativa

A campanha educativa foi implementada nos três locais onde o projeto foi desenvolvido e contou com o engajamento dos diferentes atores que compõem o sistema.

A campanha foi elaborada com informações obtidas durante grupos focais aplicados com os quatro segmentos: apenados, visitantes (familiares) e profissionais de saúde e segurança. Além de materiais desenvolvidos a partir da perspectiva deles, outras intervenções e oficinas foram aplicadas.

Temas como acesso à saúde, adesão ao tratamento, sintomas e estigma e preconceito foram discutidos com o pessoal de saúde e de segurança. Intervenções específicas para os visitantes foram conduzidas por lideranças comunitárias, estabelecendo uma importante comunicação entre pares e uma oportunidade para ouvir os parentes dos apenados e conhecer algumas de suas difíceis estórias.

Essa iniciativa foi conduzida por ONGs que já trabalham com programas de prevenção à TB e ao HIV em diferentes comunidades dos dois estados. No Rio Grande do Sul, a Associação Cultural de Mulheres Negras - ACMUN organizou um grupo de agentes comunitárias de saúde que interagiram com 2.900 visitantes. No Rio de Janeiro, o CEDAPS (Centro de Promoção da Saúde) juntou sete líderes comunitárias que distribuíram material educativo e preservativos e falaram sobre tuberculose e prevenção ao HIV com cerca de 4.800 visitantes na fila, enquanto esperavam para entrar no presídio.

Sobre o projeto

Levando o nome do fundo financiador (TB Reach), o projeto foi desenvolvido em três unidades prisionais: Presídio Central de Porto Alegre e Penitenciária Estadual do Jacuí, no estado do Rio Grande do Sul, e no Complexo de Bangu, no Rio de Janeiro, entre outubro de 2014 e Março de 2016. Durante esse período, cerca de 11 mil pessoas foram rastreadas e foram encontrados 280 casos de tuberculose.

O projeto foi implementado pelo Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, em parceria com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e com as secretarias locais de Saúde, Segurança Pública e Administração Penitenciária. O projeto foi financiado pelo TB Reach, fundo internacional gerido pelo Stop TB Partnership, que apoia iniciativas que aumentem a detecção de casos de TB em populações de difícil acesso.

O sistema prisional e a TB

No Brasil há mais de 600 mil pessoas presas, o que torna o país o quarto em termos de população prisional.

O sistema está com 153% de sua capacidade ocupada, já que tem 376 mil vagas, segundo dados de 2014 do Infopen.

Com uma taxa de incidência média de 980 casos para cada 100 mil pessoas presas, o número absoluto de casos de TB na população prisional é de cerca de 5.200 (casos novos por ano). Isso representa quase 8% dos casos novos de tuberculose por ano no Brasil (cerca de 70 mil).

Com esse cenário, os desafios para chegar aos casos são muitos e complexos, mas o projeto mostrou que é possível oferecer diagnóstico e tratamento usando a estratégia correta. Também mostrou a urgência e a necessidade de trabalhar com essa população como uma medida importante para o controle da tuberculose no Brasil.